Ao contrário do Brasil, onde o processo de indepêndencia teve conflitos regionais e efetivou-se a partir de uma negociação política, os países sul-americanos passaram por longas guerras de libertação nacional lideradas pelos criollos, descendentes de espanhóis nascidos na América do Sul. Daí surgiram as primeiras notáveis idéias de integração continental. O sucesso militar levou a um desafio político e, por fim, a um fracasso social. Porque a libertação política latino-americana acabou por fracassar no ideal de integração, a ponto de seu maior líder militar e ideológico, Simón Bolívar, dizer que lutar pela integração latino-americana era como “arar no mar”, ou seja, inútil?
A importancia histórica, a coragem e visão dos libertadores da América são notáveis. Os erros e o fracasso a longo prazo do projeto que pensaram para o continente se deveu ao próprio modo como foi conduzido o processo.
A independência da América Hispânica foi um processo de caráter mais elitista que popular. Foi conduzido sobretudo pelos criollos, filhos de espanhóis nascidos na América, que detinham uma importância econômica ascendente mas um poder político limitado. Os principais cargos estavam nas mãos de funcionários da Coroa Espanhola e esta limitava também as relações comerciais. Tal contradição, intensificada com o aumento da exploração colonial e a chegada das idéias iluministas vindas da Europa, fez surgir no continente um nacionalismo criollo, que respeitava as fronteiras dos Vice-Reinados da Espanha, que nada tinha a ver com as ocupações tradicionais da população originária.
Homens cultos e inteligentes de pensamento liberal, muitos dos libertadores participavam da maçonaria. Criaram suas tropas que saíram a luta desde diversas frentes: Bolívar desde a Venezuela, Sucre saindo da Bolívia, San Martín da Argentina, O’Higgins do Chile. Os Exércitos Libertadores eram formados em grande parte por soldados mercenários, muitos deles extrangeiros, e também de indígenas, negros e mestiços.
Tinham apoio os caudilhos locais, geralmente grandes proprietários de terra de influência regional.
Ao triunfar depois de grandes batalhas com as tropas reais,o projeto bolivariano mostraria seu calcanhar de Aquiles: as disputas regionais de poder pelos caudilhos acabariam por fragmentar e fazer naufragar o sonho da Pátria Grande de Bolívar. Mesmo assim consolidava-se uma mudança política da maior importância ao continente: a América agora era livre, independente e soberana, uma conquista que não admite passo atrás. Por outro lado, não houve significativa transformação e inclusão social, os pobres continuaram pobres e sofrendo dos mesmos problemas; os ricos, os donos do poder, deixaram de ser brancos espanhóis para serem brancos nascidos na América. Os povos originários e os descendentes dos escravos africanos não foram incluídos. A América libertou-se politicamente da Europa mas seus dirigentes não se libertaram do eurocentrismo, não descolonizaram suas próprias mentes.
A frustração de Bolívar em seu leito de morte não anula sua luta e história de vida, a prova cabal disso é sua presença nunca apagada da história de países como Colômbia e Venezuela, a influência de seu pensamento nas mais diferentes e até opostas correntes políticas. Não foi à toa que o presidente Hugo Chávez deu o nome de Revolução Democrática Bolivariana ao processo político integracionista que propõe seu governo. Ao evocar esse grande líder, retoma a figura de um herói muito presente na memória popular de seu país e também aos seus ideias da Pátria Grande contra a dominação estrangeira. O grande desafio de Chávez é integrar o continente, conter as picuinhas das elites tradicionais e contemplar as classes tradicionalmente exploradas e esquecidas nesse projeto. Assim como foi com Bolívar, o sucesso ou fracasso do projeto chavista a História é quem dirá.
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May 31st, 2010 at 3:11 pm
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