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Senti um profundo incomodo ao sair do cinema. Os merecidos aplausos do público ao final da sessão não escondiam o deconforto mal disfarçado na face de cada um do lado de fora da sala.

Um embrulho no estomago, uma reviravolta na mente e um aperto no coração é sinonimo de um bom filme, ao menos aos que acreditam que a arte pode ter sim uma função política e social. Godard não mudou o mundo, Silvio Tendler tampouco vai mudar. Infelizmente, não basta ser cineasta.

Cineasta é pouco. Em Utopia e Barbárie, que estreou oficialmente ontem, Tendler e sua equipe são verdadeiros professores de história de um século em que a humanidade imaginou estar prestes a tocar o céu e que ao cochilar levantou a beira de um abismo. O quadro negro é a tela de cinema e os alunos-espectadores são cruelmente bombardeados por imagens e informacoes de tempos não muito remotos, que alguns viveram, outros ouviram falar.

Utopia e Barbárie, necessariamente nessa mesma ordem. Revolução Russa, Revolução Chinesa, Bomba Atomica, Primavera de Praga, Revolução Cultural, Glasnost e perestroika, Revolução Cubana, Guerra do Vietnam,Contracultura, Maio de 68, Abril de 64. Tudo isso faz parte do mosaico histórico-visual que forma o documentário, contado pelos próprios atores dessa história. Gente das mais brilhantes que estamos acostumados a ver e ouvir e outros anonimos- e nao menos brilhantes. A memória é o grande guia desse espetáculo.

Os sonhos forjados por muitos homens e mulheres por muito tempo são destruídos por poucos e rapidamente. De Allende a Pinochet, exemplo emblemático. Dessa madrugada sombria renasce uma nova sociedade, ainda adormecida. Construção e desconstrução, esperança e desilusão, essa é a tonica de todo filme.

Nos traz mais do que respostas, perguntas. Silenciosas, abafadas, internas, quase sufocantes. Como ressalta um dos entrevistados, talvez estejamos querendo medir a história a partir do tempo de nossas vidas. Essa ansia de ver um mundo melhor é saudável mas possivelmente a humanidade só poderá enxergar o resultado de suas açoes no foco certo, num momento histórico nem muito de perto e nem muito de longe dos fatos.

Pretensioso- no bom sentido-, o diretor tentou retratar a essencia da nossa história moderna como humanidade, a partir de seu olhar e memória. O filme levou quase duas décadas para ser concluído e, como ressalta o diretor, poderia ser construído eternamente, pois a história nao para.

Utopia e Barbárie gera o desconforto saudável a cada um que tem consciencia de que vive em sociedade e de que o outro no futuro será voce mesmo. Involuntariamente, Tendler deixou aos seus admiradores uma bela homenagem a si mesmo.

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