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Depois do terrível terremoto que destruiu o país, o Haiti chamou a atenção do mundo. A mídia nos mostrou o que se podia esperar dela: imagens de devastação levadas à exaustão, de um país miserável e que precisa de ajuda internacional. A luta diária dos cidadãos haitianos para salvar seus compatriotas, a solidariedade entre eles foram secundárias diante das imagens de sofrimento e do auxílio de outros países. Sem falar que segundo relatos de quem estava lá no momento dos tremores as forças militares estrangeiras só começaram a ajudar a população local dias depois do terremoto.

É um bom momento lembrarmos que o Brasil é o país que lidera as tropas da Minustah, missão da Onu no Haiti, que já vai cumprir 6 anos de exitência e não apresenta muitos resultados significativos. A liderança brasileira tem dois objetivos: um diplomático e outro militar. No âmbito das relações internacionais o Brasil pretende afirmar sua condição de líder regional do bloco latino-americano e terceiro-mundista e ampliar sua influência internacional para, entre outras coisas, barganhar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Onu, que tem sido uma reivindicação diante da nova configuração geopolítica mundial. Em termos militares a ocupação e operação de nossas tropas no Haiti, segundo alguns dos militares, serve como treinamento para posteriores ações de tomada de regiões dominadas pelas facções do narcotráfico no Rio de Janeiro. O web-documentário Bon Bagay Haiti mostra a história de alguns dos moradores de Cité Soleil, a maior favela do Haiti, ocupada pelas tropas militares.

O que o terremoto deixa é a impressão de que o Haiti necessita ainda mais de ajuda internacional e intervenção militar para controlar a situação de caos. Há uma total desconfiança em relação à capacidade do povo haitiano, de seus profissionais e instituições, como afirma o sociólogo Osmar Thomaz, que estava presente nos primeiros dias de tragédia: “As organizações internacionais não conhecem o Haiti, mas os haitianos conhecem. É preciso deixar de ver os haitianos como vítimas passivas, eles são vítimas ativas.” Solidariedade diplomática e humanitária são sim muito bem vindas. Entretanto me parece que o que o país mais pobre das Américas mais necessita é de liberdade para trilhar seu próprio caminho, sem intereferências militares, pressões econômicas externas e modelos estrangeiros a serem implantados que marcaram toda sua história.

De país pioneiro de uma revolta escravista que o tornaria o segundo a conquistar a independência e primeiro a abolir a escravidão no continente americano, o Haiti nunca conseguiu construir seu próprio modelo, boicotado e pressionado pelas potências mundiais por ser um “mau-exemplo” às outras colônias exploradas. Pelo simples azar de ter sido pioneira em liberdade e igualdade, justamente lemas defendidos por sua antiga metrópole. Os Pecados do Haiti, como ressalta artigo de Eduardo Galeano. Outras boas reflexões sobre a história política haitiana estão no texto de Maria Clara Carneiro Sampaio.

O Ministro da Defesa brasileiro Nelson Jobim, afirmou que após o terremoto a função prioritária das tropas de nosso país deve passar de manutenção da paz para reconstrução do país. Porém militarização não é o caminho para o Haiti, como ressalta Sandra Quintela: “Não se faz ajuda humanitária com tropas militares. O povo haitiano, através de suas organizações e movimentos sociais, precisa ser apoiado para que sua voz fale mais alto no processo de reconstrução do país.”

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