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Pedro Tierra nasceu privado de liberdade. Um poeta que foi parido

entre grades, torturas e escuridão. Pedro Tierra foi o nome escolhido Hamilton Pereira da Silva para driblar os militares e fazer conhecer ao mundo a crueldade do submundo da ditadura militar brasileira que iniciou-se em 1964.

Sua história é digna de filme: Hamilton era militante do movimento político e foi preso em 1972 aos 24 anos. Passou por vários presídios até ser libertado em 1977. Nesses quase cinco anos encarceirado, escrever foi uma maneira de manter a lucidez no cotidiano insano da prisão. Cada dia era uma batalha a ser vencida, diante da tortura calar-se era a única arma e sobreviver era a unica vitória possível. Hamilton (e Pedro Tierra) viu morrer seus companheiros, sofreu, mas sobreviveu a tudo que viu e a cada verso que fez.

Ao ser deixado sozinho durante um interrogatório, roubou um lápis deixado sobre a mesa e escreveu seus primeros versos em papel de maço de cigarro. Já que as cartas escritas pelos presos passavam por censura, Hamilton escrevia seus poemas aos familiares e amigos supostamente copiando poesias de um livro que havia lido na cadeia, de um tal Pedro Tierra. Surgia aí seu pseudônimo.

Posteriormente foi necessário mudar a estratégia e as poesias passaram a sair prisão através de seu advogado Luiz Eduardo Greenhalgh (atualmente deputado federal pelo PT), em pequenos papeizinhos que tranportavam dentro de canetas BIC amarelas. Depois de intenso intercâmbio de canetas e versos, o advogado sugeriu reunir a poesia de Hamilton em um livro.

Inicialmente em edição artesanal no Brasil, o livro Poemas do Povo da Noite foi lançado editorialmente na Europa em 1978 e no ano seguinte foi corajosamente publicado pela Editora Livramento em nosso país, tudo isso graças ao esforço de muitos amigos e até desconhecidos comprometidos na luta pelos direitos humanos. O pseudônimo Pedro Tierra foi mantido, obviamente, para preservar a identidade de Hamilton, já que ainda estava em vigência o regime político repressivo.

Esse livro está atualmente publicado pela Fundação Perseu Abramo, da qual Hamilton Pereira foi presidente. O poema-prólogo que abre o livro começa assim:

“Fui assassinado.
Morri cem vezes
e cem vezes renasci
sob os golpes do açoite.

Meus olhos em sangue
testemunharam
a dança dos algozes
em torno do meu cadáver.

Tornei-me mineral
memória da dor.
Para sobreviver,
recolhi das chagas do corpo
a lua vermelha de minha crença,
no meu sangue amanhecendo (…)”

É um livro duro, denso, monotemático, quase torturante mas totalmente necessário, especialmente nesse momento em que se discute a punição aos autores desses crimes de lesa-humanidade.

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