Paulo Cannabrava é história viva. Um jornalista nato que não se cala diante das injustiças. Perseguido e exilado durante a ditadura militar brasileira, viveu e passou por diversos países latino-americanos que na época viviam processos políticos progressistas como Cuba, Perú, Panamá, Bolívia e Chile. Dotado de grande senso crítico e apaixonado por Nuestra América, o veterano jornalista concedeu uma entrevista exclusiva para o Soy Loco Por Ti.
Como começou sua paixão pelo jornalismo e pela America Latina?
Acho que nasci com a paixão pelo jornalismo. Nasci com um ponto de interrogação na testa, querendo respostas pra tudo. Isso me levou pro jornalismo, e até hoje eu sou um bom jornalista porque sou um grande perguntador, quero saber porquê. O que me levou a America Latina foi o contato nos foros internacionais e a Revolução Cubana, que em 1961 me nomeou correspondente da Prensa Latina, fui “caçado” pelos jornalistas latino-americanos, porque era um cara bem articulado no jornalismo e interessado no que acontecia no continente. Aí eu fui ser correspondente da Prensa Latina e isso estreitou meus laços e me tornei latino-americano, com consciência de ser brasileiro e latino-americano.
O senhor já viveu e visitou vários países da região. O que o acha que nos une? Quais as nossas diferenças?
As diferenças fazem parte da nossa riqueza, então elas também nos unem. Porque a diversidade é nossa riqueza: a diversidade cultural, que inclusive temos no Brasil que é o maior país do continente. O que nos deve unir é que nós só podemos construir um futuro unidos, nós só podemos enfrentar a voracidade imperialista unidos, só podemos construir a verdadeira independência unidos. Sem um projeto estratégico de integração latino-americana, nós vamos nos desunir e aprofundar as diferenças, então as diferenças vão ser negativas ao invés de ser positivas.
O senhor esteve muito próximo a alguns governos militares com caráter popular e de esquerda, algo inimaginável hoje aos brasileiros que temos como referencia o governo militar de direita e autoritário. Como foi isso?
Antes de 64 existia nas Forças Armadas Brasileiras um conjunto enorme de oficiais nacionalistas, democráticos, que estavam empenhados num projeto de construção do país junto com um governo democrático, eleito e que tinha um projeto nacional. O projeto era civil e militar. Depois do golpe foram milhares de cassados, esvaziaram as Forças Armadas dos melhores quadros. Foram perseguidos, cassados, expulsos. Ficaram aqueles submissos as estratégias superiores do Comando Sul dos Estados Unidos, aqueles que haviam sido seduzidos a partir da convivência, dessa promiscuidade entre os serviços de inteligência.
Quando eu fui para outros países da América Latina continuei convivendo com esses oficiais que estavam em seus países interessados em construir pátria, em ser patriotas. Assim foi na Bolívia, no Peru, no Panamá. Eram militares iguais aqueles que foram expulsos das Forças Armadas Brasileiras. Eu ainda tenho esperança de que os militares brasileiros adquiram essa consciência de que é preciso fazer pátria.
O que esses governos progressistas deixam de aprendizado?
Que é preciso ter coragem e fazer as coisas, fazendo as coisas acontecem. Precisa tirar a bunda da cadeira e sair pra rua, com coragem, exigir os seus direitos. Aonde isso aconteceu, aonde os estudantes e os trabalhadores tiraram a bunda da cadeira e foram à luta as coisas aconteceram.
Como o senhor analisa a mídia latino-americana?
A mídia latino-americana em geral parece feita por um cara só, uma pessoa só, com raríssimas exceções. O duro é que aquela que é de massa, aquela que é a grande mídia essa parece ser feita por uma pessoa só.
O que devem fazer os movimentos políticos e sociais para furar o bloqueio midiático?
Deve fazer as discussões críticas e exigir a honestidade dos meios. Na escola vocês podem pegar os jornais de São Paulo, colocar todos eles na mesma mesa, e vai ver que é tudo a mesma coisa, fazer uma crítica construtiva disso, porque não temos um jornalismo melhor? E cobrar dos meios, questionar, mandar cartas, pedir cobertura honesta das coisas, exigir que respeitem a política exterior de seu próprio país, por exemplo. Imagine se um jornalista nos Estados Unidos contestar a política exterior do seu governo, imagina o que acontece com ele. Lá que é a democracia, né? Mas imagine se um jornalista lá tiver a coragem de fazer isso, ele vai ser considerado desertor e isso é muito grave. Lá todo mundo tem que estar integrado como um soldado na guerra permanente que eles estão travando contra a humanidade.
Está aumentando a integração continental nos últimos anos?
Eu acho que está melhorando sim. Está havendo um maior entendimento entre os governos mas isso só vai fazer sentido quando começar a haver integração entre os grupos sociais, sindicatos, estudantes, movimentos culturais, aí vai fazer sentido a integração.
De que trata seu livro No Olho do Furacão?
No Olho do Furacão é um livro catártico, é uma catarse mas acho que dá uma visão diferente do que está na mídia, do que é a América Latina. É um livro de reportagens retrospectivas, o repórter olha pra trás e reconta as histórias que ele presenciou. Acho que o objetivo é que contribuam para que as pessoas olhem essa nossa América Latina como realmente uma coisa nossa.






July 30th, 2010 at 9:48 pm
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July 31st, 2010 at 1:21 am
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