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O título sugestivo é o nome do livro escrito por Rosana Bond*, lançado em 2004 pela Coedita. A brasileira Rosana foi uma das primeiras jornalistas a entrevistar os guerrilheiros do grupo conhecido como Sendero Luminoso**, que chamou atenção sobretudo nos anos 80 e 90 por ações de terrorismo e sabotagem.

A própria autora justifica na apresentação que na verdade escreveu dois livros em um. Na primeira parte, retrata a vida dos indígenas ancestrais que habitavam o Perú antes da chegada dos colonizadores. Em seguida traz um panorama crítico da história recente do país, com enfoque no movimento guerrilheiro e na ditadura de Alberto Fujimori nos anos 90.

O livro se inicia introduzindo uma boa pesquisa sobre o império inca, que a partir do eixo inicial em Cuzco se expandiu pelo Perú e também por parte de Bolívia, Equador, Argentina, Chile, Colômbia e até um mínimo pedaço do Brasil, constituindo o chamado Tahuantinsuyo. Os incas consolidaram um sofisticado sistema de governo, criando uma classe governante responsável de coordenar todo esse amplo território, que se baseava no trabalho comunitário dos ayllus, pequenas comunidades com laços de parentesco. A jornalista busca explicar não só as formas de governo e organização social, como o conceito de “bem viver” que prevalecia, as questões espirituais, a relação com a terra e a natureza, e as razões da destruição tão rápida com a chegada dos colonizadores. Da invasão espanhola, retrata a agressão física e simbólica que mesmo assim não eliminou a crença nem o modo de viver dos indígenas e camponeses peruanos, sendo que alguns ainda sonham com a restauração do regime incaico e com a mitológico renascimento de Atahuallpa, o último inca de facto, decaptado pelo conquistador espanhol Pizarro.

Esse resgate histórico não se relaciona fortemente com o a segunda parte do livro mas serve para explicar a aceitação da guerrilha do Partido Comunista do Perú- Sendero Luminoso (PCP-SL)** em algumas regiões rurais do país. O PCP-SL surge de dissidências entre os comunistas peruanos nos anos 60 e 70 e adota a concepção maoísta de guerra popular desde o campo até as cidades, iniciando a luta armada em 1980. O quarteto de sustentação teórica da guerrilha é formado pelo pensamento de Marx, Lênin, Mao Tsé Tung e Mariátegui (primeiro marxista peruano), resumido no Pensamento Gonzalo, em referência a Abimael Guzmán, ex-professor de Filosofia e principal teórico e líder do movimento, conhecido como Presidente Gonzalo entre os guerrilheiros.

Como se percebe, a construção do pensamento guerrilheiro basicamente não herda as concepções do incaísmo ou indigenismo, mas seguindo os ensinamentos de Mariátegui, compreende os povos originários como um setor historicamente subjugado e de grande importância para uma revolução popular. Inspirados também no maoísmo, acreditam no cerco da cidade pelo campo. A estratégia do PCP-SL consiste em três etapas em relação ao governo: a defensiva tática, o equilíbrio estratégico e a ofensiva. Eles acreditam que o primeiro período foi superado após duros ataques dos governos peruanos aos guerrilheiros, que usavam ataques a quartéis para roubar armas e sabotagens como corte nas redes elétricas de grandes cidades. Desde muito tempo consideram em fase de equilíbrio estratégico, embora alguns acreditem que o movimento está muito enfraquecido, sobretudo com a prisão de seus principais líderes, inclusive Guzmán, no início dos anos 90. Muitos consideram até mesmo o movimento como extinto, ao contrário do que relata a autora. De fato, o PCP-SL já quase não figura na imprensa internacional e mesmo na peruana, ao contrário do que acontecia décadas atrás quando promovia atentados. Porém sempre foi característica deles quase não falar ou dar entrevista para a mídia.

O Sendero Luminoso foi considerado como um perigoso movimento terrorista pelos EUA, acusado de narcotráfico pelos governos direitistas peruanos e criticados por muitos membros da nova esquerda por suas práticas violentas. Por sua vivência e conhecimento do assunto, Rosana Bond busca nesse livro desmistificar essas imagens criadas do PCP-SL e o defende como um movimento político cujos militantes e mesmo simpatizantes sofreram as mais diversas e cruéis agressões e desrespeitos aos direitos humanos por parte das forças policiais e militares. A parceria espúria entre o presidente Alberto Fujimori e seu assessor Vladimir Montesinos dominou o Perú durante uma década (1990-2000). A autora faz diversas denúncias e mostra alguns fatos que vieram à tona depois da queda de ambos (Montesinos foi preso e Fujimori fugiu para o Japão). O envolvimento de Montesinos com o narcotráfico indica que as acusações contra os senderistas podem não passar de balela dos Estados Unidos, que consideravam o Fujimori que destruiu o Perú com o neoliberalismo e corrupção como um bom aliado.

De fato, difícil não pensar em uma associação com as Farc-EP: mesmo enfraquecidas, ambas subsistem depois de décadas na luta armada em países onde a esquerda não conseguiu se articular eleitoralmente, ao contrário da maioria dos países vizinhos. Sofrem ataques e acusações da mídia, das elites e da esquerda moderna mas continuam reivindicando seu caráter revolucionário. Enquanto muitas guerrilhas nos anos 60 e 70 adotaram a tática cubana do foco guerrilheiro com apoio inicial sobretudo de estudantes e jovens militantes, as Farc-EP e o PCP-SL foram os que melhor se embrenharam e conseguiram, pelo menos inicialmente, um apoio significativo dos camponeses em algumas regiões rurais. Resta a dúvida: como poderiam sobreviver por tanto tempo? Associação ao narcotráfico ou apoio popular?

* Rosana Bond é editora do jornal A Nova Democracia, que traz constantemente artigos, reportagens e análises sobre o movimento guerrilheiro no Perú
** A denominação de Sendero Luminoso é comumente usada pela imprensa e faz referência a um texto de Mariátegui, mas é rejeitada pela guerrilha, que prefere ser identificada como Partido Comunista do Perú e não como um conceito vago como sendero luminoso (que significa caminho iluminado)

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One Response to “Perú: do império dos Incas ao império da cocaína”


  1. Murilo Esteves Juniorr

    2 months ago

    nunca tinha visto esse blog de vcs, mas adorei a idéia e tenho amigos historiadores que amam as americas como vcs, eles bem poderiam ajudar em alguns posts e tal. vou repassar o link pra eles.

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